As manchetes dos jornais e da televisão trazem mais um caso de assassinato de homossexuais. Tantos são os que viram, ouviram, fecharam o jornal, e mudaram o canal, afinal não tem nada a ver com isso. Graças a Deus! Graças a Deus, nenhum de seus filhos tem esse problema.
Eis aí uma das reações mais condescendentes. No geral, a população acha mesmo uma sem-vergonhice esse pessoal cheio de trejeitos, falando afeminado, se travestindo e as mulheres, então, nada mais grotesco que duas moças namorando. Não é fácil se absorver comportamentos que fomos orientados desde cedo a rejeitar. Entretanto, o que fazer quando depois de anos aprendendo, pensando e vivendo baseados em conceitos tão entranhados em nossas vidas, somos surpreendidos por uma realidade para a qual não estamos preparados e que nos confronta com o que acreditávamos ser a verdade.
À parte o ranço preconceituoso que há em torno deste assunto torna-se inadiável uma reavaliação da sociedade a esse respeito. É inútil tentar ignorar a existência dos homossexuais pois qualquer dia desses você pode ser questionado sobre o assunto por seu filho, seu neto, quem sabe, até a sua tia, e nesse momento precisará usar de muita cautela e discernimento porque a sua resposta vai fazer referência não só a alguém isolado que pode ter chamado para si a atenção em uma ocasião especial, como também a pessoas bem próximas, queridas e respeitadas, cujo procedimento talvez nunca tenha lhe despertado para essa peculiaridade. Pare um pouco para pensar e lembre do padre ou pastor de sua igreja, do médico que o atendeu na urgência, do cidadão empreendedor e capaz que mais realizações trouxe para a cidade onde você nasceu. Nem todos apresentam traços indicativos em seus gestos, maneira de vestir ou falar. Por isso, não importa se você não os vê ou se insiste em não enxergar o que está à sua frente. De nada vai adiantar, porque eles estão em todo lugar: nas ruas, no trabalho, na vizinhança, na família ampliada e por vezes dentro de casa, respirando do mesmo ar e comendo da mesma comida que você; em certas situações, perdoe-me pela contundência, pagando pelo que você come.

Essencial para se começar a adentrar nesse assunto é compreender que ninguém escolhe ser homossexual. Os bebês sorteados já trazem consigo a sementinha da diferença; só que, pode-se constatar que enquanto algumas crianças apresentam desde cedo comportamentos que destoam do esperado, outras vão crescer, casar, viver anos a fio até se descobrirem homossexuais. Porém, que os orientadores e aconselhadores de plantão não se iludam, nem tentem iludir ou atormentar os que confiam e acreditam neles: não há cura para isso como algumas religiões pregam. É como nascer com a pele escura; não há como mudar, ainda que se saiba que uma pessoa negra vai sofrer discriminação na família, na escola, no trabalho, enfim nas relações com o mundo. Não há como se desfazer o que já
vem feito e brota ou jorra feito água, ora pouco a pouco como a transbordar de um recipiente, ora em descontrole, na velocidade de uma enchente. Ocorrem, sim, casos de pessoas que, para poupar os familiares de sofrimentos e decepções, passam a vida se escondendo, dissimulando os seus sentimentos; sacrificam sua felicidade, sem entender que aqueles entes queridos não merecem esse esforço, pois apesar de não demonstrar, há tempos perceberam as tendências e a dor do filho ou do irmão, mas preferem se passar por desentendidos porque lhes é mais conveniente manter o embuste. Essas famílias não se importam com os danos que essa encenação possa causar a quem está tendo que se enquadrar num esquema traçado por outros, representando diariamente papéis opostos ao que verdadeiramente sente em seu íntimo. Esses parentes reforçam a sustentação das aparências a qualquer custo, ainda que resultem em realidade extremamente frustrante e infeliz para o próprio homossexual e possíveis esposas, maridos e filhos, vítimas do “bem intencionado” engodo. Conscientes do que ocorre com o familiar, nunca o incentivaram a aceitar-se e viver com tranqüilidade a sua sexualidade, porque não estão preocupados de fato com ele, apenas com a própria dificuldade em lidar com a questão e enfrentar o preconceito. Essas pessoas que, veladamente, empenham-se para resolver os problemas de se ter um homossexual em casa, manipulando atitudes e sentimentos, justificam suas ações dizendo agir sempre em prol da família. Muitas delas, diante de um impasse, que lhe exigisse desprendimento semelhante, jamais abriria mão de sua própria vida, casamento, divórcio ou qualquer escolha pessoal, para evitar magoar alguém ou agradar a quem quer que fosse.
Se no acolhimento do lar, encontram-se tantas dificuldades, lá fora, o relacionamento torna-se mais problemático. Na convivência com homossexuais, assumidos ou não, as pessoas tendem mais frequentemente a fazê-los motivo de piada, em sua presença, descendo, quase que invariavelmente, a comentários desairosos em sua ausência. Por vezes, torcem-lhes o nariz ao invés de procurar ver o que existe neles além dessa sexualidade considerada atípica, qual o seu caráter e que virtudes possuem; estes, sim valores que devemos orientar nossos filhos a observar em todos quantos os rodeiam. Em contrapartida a tantas campanhas contra homossexuais, faz-se premente que lhes sejamos solidários pelas dificuldades que enfrentam. Quantas mães e quantos pais com quem convivemos precisam de apoio para aceitar os filhos e amá-los incondicionalmente, para entender que Deus entrega a seus cuidados e devotamento não só aqueles chamados “filhos de ouro”, mas principalmente os complicados, mal recebidos no meio em que vivem; que estes merecem atenção, cuidados e afeto redobrados. Quanta tristeza poderia ser evitada se houvesse mais aceitação e respeito. Já estive em velórios em que se cogitavam possibilidades como dívidas ou crises existenciais para justificar um suicídio, quando havia uma consciência muda de que a causa daquela tragédia tinha sido tão somente o temor de desgostar ou enfrentar os parentes com a revelação de uma condição sexual que se confrontava com o que seria considerado normal e aceitável. Como é alto o preço que se paga pelo bem estar dos que não respeitam as diferenças. Infelizmente ainda ouve-se com freqüência a frase “prefiro um filho morto a um filho gay”.
Lamentável que na sociedade em que vivemos para que haja respeito aos homossexuais seja necessário criar uma lei que obrigue a sociedade a agir da maneira que deveria ser norma de conduta usual. Situação semelhante enfrentaram os negros, humilhados e aviltados por tanto tempo até conseguirem a aprovação da Lei Afonso Arinos que inibe a ação dos que somente se freiam de fazer observações e comentários jocosos e desabonadores diante da possibilidade de punição. É desolador convivermos, não com homossexuais, negros ou tantos marginalizados pela sociedade, mas com essas pessoas nocivas, preconceituosas e desprovidas da generosidade essencial à vida em comunidade, incapazes de interagir de forma civilizada com os que lhes parecem estranhos e diferentes. Valores intransigentes e desagregadores, passados através de idéias e atitudes de geração a geração, pelas famílias ou por pessoas influentes como autoridades religiosas, têm estimulado reações hostis e violentas. Sementes de intolerância são plantadas desde cedo nas mentes das crianças. E os que buscam aconselhamento em indivíduos que se julgam aptos a orientar outros, mas que não possuem conhecimento suficiente para desempenhar esta missão, são instruídos a seguir caminhos sem saída. Estes despreparados conselheiros, prisioneiros de sua ignorância, contudo supondo que detém toda a sabedoria necessária, negam-se a pesquisar a fundo, sob todos os ângulos, os assuntos acerca dos quais vão prestar auxílio aos que lhes confiam a fragilidade do seu destino e de tantas pessoas que podem ser penalizadas por uma orientação errada.
Vemos com tristeza, tantos amigos que supomos, esclarecidos, personalidades destacadas em nosso meio, estagnados em pontos de vista radicais e equivocados, agindo em desacordo com o amor, o respeito e a benevolência imprescindíveis para a construção de relações mais harmoniosas com o mundo real em que vivemos. Porque o mundo não se constitui daquilo que consideramos correto e aceitável. A despeito das opiniões que possamos ter não podemos assumir o poder de DEUS para criar um mundo de acordo com o nosso conceito de certo e errado. O mundo já existe e é este aí à nossa frente. E é nele que vamos viver e aplicar o “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
3 comentários:
[Porque o mundo não se constitui daquilo que consideramos correto e aceitável.]
Aurita,que belo texto.Pra quem foi vítima de intolerância por ser um que se desvia,que exerce e afirma sua diferença simplesmente existindo,e sobrevivendo,suas palavras fizeram-me inundar as vistas.
Seu texto tem bastante coerência de idéias e suas opniões são sutilmente inseridas no conteúdo apresentado, de tal forma que a leitura flui sem haver contestação por indícios de parcialidade de quem o escreve.
Obrigado pela consideração em me apresentar seu espaço virtual de intelectualidade.
Gostei também de sua ousadia em tecer palavras num tema tão meticuloso e cheio de pseudos tabus.
Grande abraço!!!!
Rogério Agra
Lendo os textos eu me lembro das histórias que você me conta, e lembrando fico ainda mais fascinada pelas palvras na tela do computador porque parece que as vi serem germinadas: parece que vejo aquelas histórias borbulhando na sua mente, pedindo para serem contadas de uma forma mais que especial, através de metáforas ou frases que encerram todo o significado do texto, mas que sejam contadas todas aquelas histórias de alguma forma diferente, e você encontrou jeito mais primoroso de recontá-las: costurando-as juntinhas num belíssimo texto.
Beijos!
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