quarta-feira, 19 de novembro de 2008

CASO ELOÁ - I - O AMOR DE LISO POR ELOÁ

Foto de João Prates


Assistimos dias atrás a um Big Brother do Terror. Desta vez não nos foi dado escolher se queríamos, ou não, gastar o tempo diante da TV assistindo a diálogos fúteis e encenações de paixões inexistentes, vendo como se comportam pessoas comuns ante a possibilidade de ganhar um elevado prêmio em dinheiro, com todos se esfalfando e vendendo a alma em busca do título de vencedor. Não, não era um desses reality shows inconseqüentes que invade as casas de tempos em tempos. Era a vida real nos adentrando a sala a todo momento e após as primeiras incursões em nosso cotidianozinho morno chamando a atenção para o fato noticiado pela TV. À medida que as horas foram se passando pudemos, gradativamente, compreender que diferentemente do BBB, dali não sairiam vencedores.
A princípio pareceu-nos que, como resultado de uma pequena rusga entre um casal de jovens namorados, o rapaz rejeitado pela mocinha invadira o apartamento onde ela morava, encontrando-a reunida com alguns colegas em torno de um trabalho escolar, forçando-a a dar-lhe uma atenção que dizia ele, antes havia sido negada. Mantendo-os presos sob a ameaça de um revólver, mas sem um objetivo definido, leváva-nos a crer que talvez quisesse apenas expressar algo como a imensidão de seu amor. Muitas horas depois, outra chamada de noticiário extra nos lembrava do que ocorria e que a situação persistia, alterada por dois diferenciais opostos; de um lado, a versão romantizada pela mídia que apresentava repetidamente na telinha um garoto apaixonado e ferido, carente de compreensão e atenção, e do outro, os fatos narrados por dois jovens já liberados pelo seqüestrador que revelavam a postura agressiva do mesmo personagem, descontrolado portador de um saco cheio de munição e ressentimento . Começava a delinear-se por trás da história do pobre rapaz o agravante do desespero do seu amor. E os fatos novos ou antigos que se seguiam a cada vez que o repórter nos tirava do sono, do café, da conversa em família, mostrando incontáveis vezes no vídeo as cenas da mocinha na janela, frente a desejada e inatingível liberdade, pedindo calma e tendo como pano de fundo o vulto assustador do rapaz. Desnudado pelo poder de aproximação da câmera, na face do esforçado trabalhador o perigo iminente da insanidade do seu amor. No trabalho, esquecidos do assunto, mergulhados em nossas obrigações, ouvíamos que, apesar das longas horas que haviam se passado, a refém ou as reféns não tinham sido libertadas. Naquele momento, o jogador dos fins de semana, tão semelhante aos companheiros de futebol nas fotos insistentemente exibidas, então transformado em celebridade, via a acalentada fama abrutalhar-se na certeza da inviabilidade do seu amor. E ao despertar de outra noite de sono ou dos nossos próprios problemas, descobríamos que o impasse continuava, o cerco policial se intensificava e que as janelas mudas escondiam por trás do lençol ou da camisa do time preferido do antes inofensivo rapaz, a inevitável ameaça do seu amor. Nas incontáveis vezes em que buscávamos, canal por canal, notícias alentadoras, destarte os depoimentos de amigos, parentes e conhecidos, que falavam de um Lindemberg bonzinho e sofredor, pressentíamos nas imagens quase inalteradas do cenário a tragédia que se insinuava através da crueldade do seu amor. No desfecho do sequestro, ao som dos estampidos seguido pelas imagens que se desenrolaram ao vivo, a constatação do que se descobrira ao longo daquelas demoradas horas: o amor imenso, desesperado, insano, inviável, ameaçador e cruel era um engodo. Em seguida à explosão da porta, invasão do local, retirada apressada das garotas feridas e à operação desastrada da prisão do sequestrador, a polícia e a perícia fizeram uma varredura no chamado palco da tragédia e não encontraram em lugar nenhum, esquecido ou escondido, qualquer vestígio do elemento citado incessantemente naqueles cinco dias: o tão anunciado amor do “Liso”.
Discutiu-se muito a opção de não se ter utilizado a tecnologia disponível, calculou-se a distância dos atiradores de elite, o alcance das bombas que explodiram a porta, questionou-se a sanidade do rapaz e investigou-se até mesmo o passado e o presente das famílias envolvidas na tragédia. A despeito de tudo isto, depois de dissipada a fumaça dos explosivos e dos ânimos, a maioria das pessoas ainda não conseguia se aperceber da verdade que se evidenciava. Independentemente da estratégia utilizada pela polícia, negociadores ou familiares, vivo ou morto, o então famoso Lindemberg só saíria do cativeiro em que ele próprio se aprisionou, tendo alcançado o seu intuito, que fora, desde o princípio, arrancar dali o objeto de seu desejo, a vida de Eloá.


OBS: “Liso” era o apelido pelo qual era conhecido o possessivo e inconformado aspirante à celebridade de Santo André.

CASO ELOÁ - II - OS LINDEMBERGS NOSSOS DE CADA DIA


Ao pensarmos na possibilidade de casar ou simplesmente morar junto com alguém, seguimos, inadvertidamente, a tendência de analisar mais os pontos positivos do parceiro, vendo-os com lente de aumento, enquanto procuramos minimizar-lhe as imperfeições. É comum concluir que com uma convivência mais estreita um e outro podem conhecer mais a fundo idéias, sentimentos e reações mais recônditos e desconhecidos aos primeiros contatos. Conclusão ingenua pensar que as incontáveis opiniões expressadas diariamente a respeito de tantos acontecimentos, possam servir de subsídios para se prever as reações do companheiro em situações semelhantes. Com a maturidade o mundo real irá desnudar-se mostrando-nos que as pessoas são mutáveis e estão em constante processo, portanto é vã e tola essa segurança que se ampara nas evidências cotidianas. Na verdade podemos sempre nos surpreender com atitudes inesperadas, nos deparar com o que acreditávamos impossível ou inimaginável.
O que leva, então, alguém que pensávamos conhecer tão profundamente a agir de forma extremamente diversa do previsível? Primeiramente, o transcorrer da vida que vai calejando e moldando o jeito de ser de cada indivíduo e tornando-o diferente e por vezes até o oposto do que já foi ou do que se esperava dele. E mais outros fatores responsáveis por mudanças bruscas: as frustrações, a rejeição, a pressão, o sentir-se encurralado e sem alternativa frente a um impasse. Por essa perspectiva, qualquer pessoa contrariada em suas vontades e expectativas pode representar um perigo em potencial, desde que não tenha trabalhado e resolvido seus anseios e insucessos. Excluindo-se os casos ditos patológicos, não existe possibilidade de identificar os Lindembergs Nossos de Cada Dia, pois de fato somos todos passíveis de em situações extremas, agir como gatos acuados, que de dóceis animaizinhos podem se transformar em feras com garras e dentes à mostra.
Tarefa difícil essa de encontrar a pessoa certa para dividir conosco a casa, a cama, os sonhos, a vida. Como distinguir dentre tantas a que pode nos fazer feliz. Antes de tudo é preciso sair na chuva e se molhar mesmo porque não há outro modo de se chegar ao tão esperado encontro da chamada outra metade que nos completa. No entanto não é tão simples como pode parecer. Haveremos de bater com a cara na parede talvez um montão de vezes e apesar de tudo, continuar persistindo nessa busca. Persistir usando o discernimento necessário para saber recuar, voltar atrás diante dos equívocos e da descoberta de que um movimento errado pode levar a resultado mais desastroso. Por segurança, vale a pena estar sempre alerta a qualquer sinal de desamor e só permanecer com alguém quando o amor e o respeito forem recíprocos. Não ser nunca o vilão porque a maldade envenena antes de tudo a própria alma. Entretanto, não permitir que nenhum vilão desperdice um minuto sequer de nossos preciosos dias com comentários de desdém que tem o poder de destruir a nossa auto-estima. Ter a coragem de sair de uma relação infeliz, considerando a chance de encontrar uma pessoa melhor ou de ao menos viver com dignidade, mesmo sozinho. Desconfiar de quem não nos tem consideração e faz pouco caso de nossos sentimentos. Destratado uma vez, duas, não esperar mais. Saber a hora de reagir ao sofrer agressão verbal ou física e não protelar situações de insegurança. A vida a dois deve ser vivida em meio a bons sentimentos e companheirismo. Todo mundo tem o direito de ser feliz, mas todos nós somos responsáveis pela escolha da Felicidade Nossa de Cada Dia.

domingo, 7 de setembro de 2008

TRECHOS DE UMA CARTA PARA MINHA FILHA

... O que quero com tanta conversa é que possamos desvendar juntas o mistério que envolve as horas, os dias, o significado intrínseco das semanas e dos meses, para chegarmos a descobrir juntas que o amor pode estar escondidinho naqueles momentos em que nos parecia menos provável que estivesse, que o medo e a insegurança podem embotar muitos sentimentos bons que podemos passar a vida inteira sem saber que existiram, ruminando mágoas e tristezas em nossos corações.

... Vamos estar ao seu lado nas alegrias e aflições para rir ou chorar abraçados.

... Ás vezes pensar no amanhã pode ter o efeito de nos assustar e não nos acrescenta nada no sentido prático. Pare e viva o dia de hoje. Não com a urgência de que pode acabar logo. Bem devagar, sentindo aos poucos o gosto e o aroma de cada minuto que viver. Você está passando por uma experiência única que é a gravidez desse filho, em especial. Não sei se é um menino ou uma menina, nem se vai ser miudinho ou grandão como algumas pessoas têm dito, mas se vier a ter mais quatro ou cinco filhos, não importa, esta é a gestação desse bebê guerreiro que está resistindo a tantas dificuldades, confiante em alguém que ele nunca viu, de quem conhece a voz e o mais íntimo do seu corpo. É o milagre da vida brotando de Paulinha, com o carimbo do seu DNA, herdando ( quem sabe? ) a ternura ou a valentia da mãe... Descubra as sensações que vão aflorar de dentro de seu corpo, o calor dessa vida que está brotando de você e que percebe de modo confuso as emoções que vem de sua parte. Sabe naturalmente que é parte de você, porque está se formando a partir de seus tecidos, se alimentando do que você come, respirando em conjunto com a sua respiração. Ele e a mãe. A mãe e ele.

HOMOFOBIA, INTOLERÂNCIA E DESAMOR

As manchetes dos jornais e da televisão trazem mais um caso de  assassinato de homossexuais. Tantos são os que viram, ouviram, fecharam  o jornal, e mudaram o canal, afinal não tem nada a ver com isso. Graças a Deus!  Graças a Deus, nenhum de seus filhos tem esse problema.
Eis aí uma das reações mais condescendentes. No geral, a população  acha mesmo uma sem-vergonhice esse pessoal cheio de trejeitos, falando afeminado, se travestindo e as mulheres, então, nada mais grotesco que duas moças namorando. Não é fácil se absorver comportamentos que fomos orientados desde cedo a rejeitar. Entretanto, o que fazer quando depois de anos aprendendo, pensando e vivendo baseados em conceitos tão entranhados em nossas vidas, somos surpreendidos por uma realidade para a qual não estamos preparados e que nos confronta com o que acreditávamos ser a verdade. 
À parte o ranço preconceituoso que há em torno deste assunto torna-se inadiável uma reavaliação da sociedade a esse respeito. É inútil tentar ignorar a existência dos homossexuais pois qualquer dia desses você pode ser questionado sobre o assunto por seu filho, seu neto, quem sabe, até a  sua tia, e nesse momento precisará usar de muita cautela e discernimento porque a sua resposta vai fazer referência não só a alguém isolado que pode ter chamado para si a atenção em uma ocasião especial, como também a pessoas bem próximas, queridas e respeitadas, cujo procedimento talvez nunca tenha lhe despertado para essa peculiaridade. Pare um pouco para pensar e lembre do padre ou pastor de sua igreja, do médico que o atendeu na urgência, do cidadão empreendedor e capaz que mais realizações trouxe para a cidade onde você nasceu. Nem todos apresentam traços indicativos em seus gestos, maneira de vestir ou falar. Por isso, não importa se você não os vê ou se insiste em não enxergar o que está à sua frente. De nada vai adiantar, porque eles estão em todo lugar: nas ruas, no trabalho, na vizinhança, na família ampliada e por vezes dentro de casa, respirando do mesmo ar e comendo da mesma comida que você; em certas situações, perdoe-me pela contundência, pagando pelo que você come.

Essencial para se começar a adentrar nesse assunto é compreender que ninguém escolhe ser homossexual. Os bebês sorteados já trazem consigo a sementinha da diferença; só que, pode-se constatar que enquanto algumas crianças apresentam desde cedo comportamentos que destoam do esperado, outras vão crescer, casar, viver anos a fio até se descobrirem homossexuais. Porém, que os orientadores e aconselhadores de plantão não se iludam, nem tentem iludir ou atormentar os que confiam e acreditam neles: não há cura para isso como algumas religiões pregam. É como nascer com a pele escura; não há como mudar, ainda que se saiba que uma pessoa negra vai sofrer discriminação na família, na escola, no trabalho, enfim nas relações com o mundo. Não há como se desfazer o que já
 vem feito e brota ou jorra feito água, ora pouco a pouco como a transbordar de um recipiente, ora em descontrole, na velocidade de uma enchente. Ocorrem, sim, casos de pessoas que, para poupar os familiares de sofrimentos e decepções, passam a vida se escondendo, dissimulando os seus sentimentos;  sacrificam sua felicidade, sem entender que aqueles entes queridos não merecem esse esforço, pois apesar de não demonstrar, há tempos perceberam as tendências e a dor do filho ou do irmão, mas preferem se passar por desentendidos porque lhes é mais conveniente manter o embuste. Essas famílias não se importam com os danos que essa encenação possa causar a quem está tendo que se enquadrar num esquema traçado por outros, representando diariamente papéis opostos ao que verdadeiramente sente em seu íntimo. Esses parentes reforçam a sustentação das aparências a qualquer custo, ainda que resultem em realidade extremamente frustrante e infeliz para o próprio homossexual e possíveis esposas, maridos e filhos, vítimas do  “bem intencionado” engodo. Conscientes do que ocorre com o familiar, nunca o incentivaram a  aceitar-se e viver com tranqüilidade a sua sexualidade, porque não estão preocupados de fato com ele, apenas com a própria dificuldade em lidar com a questão e enfrentar o preconceito. Essas pessoas que, veladamente, empenham-se para resolver os problemas de se ter um homossexual em casa, manipulando atitudes e sentimentos,   justificam suas ações dizendo agir sempre em prol da família. Muitas delas, diante de um impasse, que lhe exigisse desprendimento semelhante, jamais abriria mão de sua própria vida, casamento, divórcio ou qualquer escolha pessoal, para evitar magoar alguém ou agradar a quem quer que fosse.
Se no acolhimento do lar, encontram-se tantas dificuldades, lá fora, o relacionamento torna-se mais problemático. Na convivência com homossexuais, assumidos ou não, as pessoas tendem mais frequentemente a fazê-los motivo de piada, em sua presença, descendo, quase que invariavelmente, a comentários desairosos em sua ausência. Por vezes, torcem-lhes o nariz ao invés de procurar ver o que existe neles além dessa sexualidade considerada atípica, qual o seu caráter e que virtudes possuem; estes, sim valores que devemos orientar nossos filhos a observar em todos quantos os rodeiam. Em contrapartida a tantas campanhas contra homossexuais, faz-se premente que lhes sejamos solidários pelas dificuldades que enfrentam. Quantas mães e quantos pais com quem convivemos precisam de apoio  para aceitar os filhos e amá-los incondicionalmente, para entender que Deus entrega a seus cuidados e devotamento não só aqueles chamados “filhos de ouro”, mas principalmente os complicados, mal recebidos no meio em que vivem; que estes merecem atenção, cuidados e afeto redobrados. Quanta tristeza poderia ser evitada se houvesse mais aceitação e respeito. Já estive em velórios em que se cogitavam possibilidades como dívidas ou crises existenciais para justificar um suicídio, quando havia uma consciência muda de que a causa daquela tragédia tinha sido tão somente o temor de desgostar ou enfrentar os parentes com a revelação de uma condição sexual que se confrontava com o que seria considerado normal e aceitável. Como é alto o preço que se paga pelo bem estar dos que não respeitam as diferenças. Infelizmente ainda ouve-se com freqüência a frase  “prefiro um filho morto a um filho gay”.     
Lamentável que na sociedade em que vivemos para que haja respeito aos homossexuais seja necessário criar uma lei que obrigue a sociedade a agir da maneira que deveria ser norma de conduta usual. Situação semelhante enfrentaram  os negros, humilhados e aviltados por tanto tempo até conseguirem a aprovação da Lei Afonso Arinos que inibe a ação dos que somente se freiam de fazer observações e comentários jocosos e desabonadores diante da possibilidade de punição. É desolador convivermos, não com homossexuais, negros ou tantos marginalizados pela sociedade, mas com essas pessoas nocivas, preconceituosas e desprovidas da generosidade essencial à vida em comunidade, incapazes de interagir de forma civilizada com os que lhes parecem estranhos e diferentes. Valores intransigentes e desagregadores, passados através de idéias e atitudes de geração a geração, pelas famílias ou por pessoas influentes como autoridades religiosas, têm estimulado reações hostis e violentas. Sementes de intolerância são plantadas desde cedo nas mentes das crianças. E os que buscam aconselhamento em indivíduos que se julgam aptos a orientar outros, mas que não possuem conhecimento suficiente para desempenhar esta missão, são instruídos a seguir caminhos sem saída. Estes despreparados conselheiros, prisioneiros de sua ignorância, contudo supondo que detém toda a sabedoria necessária, negam-se a pesquisar a fundo, sob todos os ângulos, os assuntos acerca dos quais vão prestar auxílio aos que lhes confiam a fragilidade do seu destino e de tantas pessoas que podem ser penalizadas por uma orientação errada.
Vemos com tristeza, tantos amigos que supomos, esclarecidos, personalidades destacadas em nosso meio, estagnados em pontos de vista radicais e equivocados, agindo em desacordo com o amor, o respeito e a benevolência imprescindíveis para a construção de relações mais harmoniosas com o mundo real em que vivemos. Porque o mundo não se constitui daquilo que consideramos correto e aceitável. A despeito das opiniões que possamos ter não podemos assumir o poder de DEUS para criar um mundo de acordo com o nosso conceito de certo e errado. O mundo já existe e é este aí à nossa frente. E é nele que vamos viver e aplicar o “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.

A CRATERA DO METRÔ DE SÃO PAULO

Sempre me abstive de assistir a esses programas sensacionalistas de fim de tarde, por julgar as notícias alarmantes, estressantes, capazes de azedar ainda mais os nossos dias às vezes já amargos. Dia desses, porém, sentada à mesa para um cafezinho, vi-me diante das tais notícias, no momento em que era apresentado ao telespectador o caso de dois idosos que choravam no vídeo contando os detalhes do processo de despejo que estavam sofrendo. Desfiaram num lampejo a vida laboriosa que levavam junto com os filhos em um sítio perdido no interior do Nordeste, onde vivendo do fruto do seu trabalho não passavam privações, mas sonhavam com os empregos e as tantas possibilidades de prosperidade da venturosa São Paulo. Narraram a partida do filho mais velho para a promissora cidade para preparar o caminho para a progressiva mudança dos irmãos e dos pais. E relembraram os esforços despendidos para conseguir vender as duas casas que o pai possuía no lugarejo próximo e enviar o dinheiro obtido com a venda para que o filho pioneiro adquirisse uma casa em São Paulo onde futuramente iriam se reunir. Em poucas palavras descreveram a transferência gradual de cada um deles para a maior cidade do país, as dificuldades de adaptação, a passagem dos anos, o curso natural da vida que levou os filhos um a um a casar ou seguir os seus desígnios, e enfim o dia em que restou só o casal na residência que representava a trajetória da família. E eis que, não se sabe em que circunstâncias, mas com o impacto da cratera que abriu-se nas obras do metrô, o filho amado, o primogênito, aquele em quem o pai depositara a confiança e as esperanças do futuro, aparece com uma bomba: ele quer a casa. Sim, a casa adquirida com o dinheiro da venda das outras duas que o pai possuía lá na cidadezinha de origem. Ora, em verdade, a casa fora comprada por ele, o filho, único representante do clã, residente à época em São Paulo e portador da pequena fortuna que lhe fora entregue pelo pai. Diante da negativa dos moradores em proceder a desocupação do imóvel, foram os velhinhos surpreendidos por uma ordem de despejo que tem origem na figura do tal filho que quer para si e tão somente para si, aqui e agora, o bem que por direito lhe pertence. De fato, lê-se claramente na escritura o nome do proprietário. E o nome que está lá é o do primeiro filho, aquele a quem por ironia do destino, o pai orgulhosamente deu o seu próprio nome.

Foto: Stela Maris

A longa matéria com os pais calou-se e desvaneceu-se como a pipa feita pelas mãos rudes do camponês escapando entre os dedos do garoto hoje feito homem. De mãos finas e delicadas, mas de coração rude e calejado como as mãos do velho, o filho barrava a entrada do câmera, resguardado pela porta que não abriu para esconder-lhe o rosto. Recusando-se a receber a equipe de reportagem, declarando que não tinha “nada a declarar” e no entanto já o fazendo, o cidadão fez questão apenas de ressalvar que não perdoava os velhos por terem procurado a imprensa. Questionada a respeito de perdoá-lo a mãe disse que se o filho os deixasse ficar na casa, ela o perdoaria, por ser esta atitude inerente ao sentimento materno. O pai, olhar atormentado pelos fantasmas do passado e do presente, falou que ainda que o rapaz lhe devolvesse a casa em questão e mais as duas que vendera anos atrás, nem assim teria o seu perdão.

Lamentável a cena dos velhinhos chorando na TV, adentrando na perplexidade da noite que tomava conta do mundo lá fora; incômoda, desoladora. Deplorável a do filho que, pressupondo a ausência de obrigação de se explicar diante das câmeras, aproveitou a ocasião para registrar sua indignação pelo ultraje sofrido com a vergonhosa história vindo a público em rede nacional.

Senti o travo do café frio e amargo e em vão procurei o açúcar pela mesa. Pressionei o botão do controle remoto e na escuridão da noite persistiu a imagem do filho, no meio da cratera aberta pelas obras do metrô, ofendido em sua honra, esgueirando-se por entre os destroços do desmoronamento e repetindo aos brados que nunca perdoaria os pais.

Em tempos que alternam ficção e reality shows há situações incontroláveis, cenas que o controle remoto não desliga.


Sugestão de filme: Terras Perdidas
com Jessica Lange

Sugestão de livro: Rei Lear
Shakespeare

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

COSTURANDO LABIRINTOS

Aptidões para trabalhos manuais eram bem vindas na época em que eu era criança e adolescente. Existiam colégios que ensinavam prendas domésticas como a arte culinária, bordados, crochê, tricô e tantas outras. Minha mãe tentou me matricular em um desses, mas embora tenha batalhado ano a ano, não arranjou a tão sonhada (por ela) vaga e apesar dos esforços despendidos no âmbito domiciliar nunca conseguiu que eu herdasse os seus talentos. Ela que durante toda sua vida costurara e bordara com esmero, no adiantado da idade e com o agravamento da doença, ficou impedida de trabalhar devido à perda gradual da visão. Todavia, seus olhinhos brilhavam e o rosto acendia-se num sorriso, ao ver e sentir com os dedos experientes uma peça de labirinto. Também conhecido como crivo, o labirinto exige paciência e dedicação para sua realização. Para fazê-lo, risca-se o desenho no tecido, de preferência linho, prendendo-o em seguida a um bastidor ou armação semelhante, onde após desfiá-lo procede-se a um minucioso bordado utilizando-se uma lâmina, tesourinha e agulha. Minha avó fazia incansáveis labirintos. Dos chamados caminhos de mesa às estolas do meu tio Padre. Talvez por isso fosse o trabalho preferido da filha mais velha, que fez-lhe o gosto de herdar as habilidades manuais maternas.


Foto de Lena Trindade

Já eu, incompetente no manuseio de linha e agulha, descobri nos livros o encantamento que me abstraiu da solidão de única filha menina, criada com desvelo excessivo e expectativas a que não podia atender. Do mesmo modo que arranjava artifícios para driblar as proibições de mascar chicletes e andar de bicicleta, inventei meios para ler nos horários em que deveria bordar ou fazer crochê. Desse gosto de ler nasceu o de escrever e voltando a atenção para a caneta ( o teclado de hoje ) venho tentando através dos anos, fazer jus ao empenho de minha mãe aprendendo pelo menos o bordado das palavras. Gosto de brincar com elas, traçar um esboço, prendendo-o a um bastidor imaginário e desfiá-las, pouco a pouco, para em seguida costurá-las entremeando-as com os meus sentimentos. Busquei aperfeiçoamento na universidade, mas não encontrei na academia objetivos que coincidissem com os meus; enquanto na leitura e na escrita me seduziam o conteúdo dos textos e as possibilidades que se abriam diante de mim, os acadêmicos consideravam imprescindível a identificação dos campos, das escolas e ideologias a que se pudesse seguir ou pertencer, e o aprofundamento na literatura como ciência. Não almejo tanto. Pretendo somente um dia quando tiver adquirido o conhecimento e a habilidade necessários, contar histórias. Sei, que pela falta de intimidade com as agulhas, até aprender a arte do bordado, vou espetar muito as pontas dos dedos. Torço para ter tempo pela frente.

Hoje, neste blogue quero apenas espaço para externar alegria, perplexidade ou indignação pelo que acontece ao meu redor. Por hoje me basta que estas palavras, ainda pouco lapidadas, possam ser um convite à reflexão. Se conseguir fazer com que alguém pense comigo ou a partir desse ponto, mesmo que numa direção exatamente oposta a mim, porém instigado pelos meus questionamentos, já terei terminado pelo menos uma pequena parte daquela toalha de mesa que D. Cassinha queria que eu tivesse feito.

Sugestão de filme: Minha vida de cachorro