Sempre me abstive de assistir a esses programas sensacionalistas de fim de tarde, por julgar as notícias alarmantes, estressantes, capazes de azedar ainda mais os nossos dias às vezes já amargos. Dia desses, porém, sentada à mesa para um cafezinho, vi-me diante das tais notícias, no momento em que era apresentado ao telespectador o caso de dois idosos que choravam no vídeo contando os detalhes do processo de despejo que estavam sofrendo. Desfiaram num lampejo a vida laboriosa que levavam junto com os filhos em um sítio perdido no interior do Nordeste, onde vivendo do fruto do seu trabalho não passavam privações, mas sonhavam com os empregos e as tantas possibilidades de prosperidade da venturosa São Paulo. Narraram a partida do filho mais velho para a promissora cidade para preparar o caminho para a progressiva mudança dos irmãos e dos pais. E relembraram os esforços despendidos para conseguir vender as duas casas que o pai possuía no lugarejo próximo e enviar o dinheiro obtido com a venda para que o filho pioneiro adquirisse uma casa em São Paulo onde futuramente iriam se reunir. Em poucas palavras descreveram a transferência gradual de cada um deles para a maior cidade do país, as dificuldades de adaptação, a passagem dos anos, o curso natural da vida que levou os filhos um a um a casar ou seguir os seus desígnios, e enfim o dia em que restou só o casal na residência que representava a trajetória da família. E eis que, não se sabe em que circunstâncias, mas com o impacto da cratera que abriu-se nas obras do metrô, o filho amado, o primogênito, aquele em quem o pai depositara a confiança e as esperanças do futuro, aparece com uma bomba: ele quer a casa. Sim, a casa adquirida com o dinheiro da venda das outras duas que o pai possuía lá na cidadezinha de origem. Ora, em verdade, a casa fora comprada por ele, o filho, único representante do clã, residente à época em São Paulo e portador da pequena fortuna que lhe fora entregue pelo pai. Diante da negativa dos moradores em proceder a desocupação do imóvel, foram os velhinhos surpreendidos por uma ordem de despejo que tem origem na figura do tal filho que quer para si e tão somente para si, aqui e agora, o bem que por direito lhe pertence. De fato, lê-se claramente na escritura o nome do proprietário. E o nome que está lá é o do primeiro filho, aquele a quem por ironia do destino, o pai orgulhosamente deu o seu próprio nome.

Foto: Stela Maris
A longa matéria com os pais calou-se e desvaneceu-se como a pipa feita pelas mãos rudes do camponês escapando entre os dedos do garoto hoje feito homem. De mãos finas e delicadas, mas de coração rude e calejado como as mãos do velho, o filho barrava a entrada do câmera, resguardado pela porta que não abriu para esconder-lhe o rosto. Recusando-se a receber a equipe de reportagem, declarando que não tinha “nada a declarar” e no entanto já o fazendo, o cidadão fez questão apenas de ressalvar que não perdoava os velhos por terem procurado a imprensa. Questionada a respeito de perdoá-lo a mãe disse que se o filho os deixasse ficar na casa, ela o perdoaria, por ser esta atitude inerente ao sentimento materno. O pai, olhar atormentado pelos fantasmas do passado e do presente, falou que ainda que o rapaz lhe devolvesse a casa em questão e mais as duas que vendera anos atrás, nem assim teria o seu perdão.
Lamentável a cena dos velhinhos chorando na TV, adentrando na perplexidade da noite que tomava conta do mundo lá fora; incômoda, desoladora. Deplorável a do filho que, pressupondo a ausência de obrigação de se explicar diante das câmeras, aproveitou a ocasião para registrar sua indignação pelo ultraje sofrido com a vergonhosa história vindo a público em rede nacional.
Senti o travo do café frio e amargo e em vão procurei o açúcar pela mesa. Pressionei o botão do controle remoto e na escuridão da noite persistiu a imagem do filho, no meio da cratera aberta pelas obras do metrô, ofendido em sua honra, esgueirando-se por entre os destroços do desmoronamento e repetindo aos brados que nunca perdoaria os pais.
Em tempos que alternam ficção e reality shows há situações incontroláveis, cenas que o controle remoto não desliga.
Sugestão de filme: Terras Perdidas
com Jessica Lange
Sugestão de livro: Rei Lear
Shakespeare
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