Assistimos dias atrás a um Big Brother do Terror. Desta vez não nos foi dado escolher se queríamos, ou não, gastar o tempo diante da TV assistindo a diálogos fúteis e encenações de paixões inexistentes, vendo como se comportam pessoas comuns ante a possibilidade de ganhar um elevado prêmio em dinheiro, com todos se esfalfando e vendendo a alma em busca do título de vencedor. Não, não era um desses reality shows inconseqüentes que invade as casas de tempos em tempos. Era a vida real nos adentrando a sala a todo momento e após as primeiras incursões em nosso cotidianozinho morno chamando a atenção para o fato noticiado pela TV. À medida que as horas foram se passando pudemos, gradativamente, compreender que diferentemente do BBB, dali não sairiam vencedores.
A princípio pareceu-nos que, como resultado de uma pequena rusga entre um casal de jovens namorados, o rapaz rejeitado pela mocinha invadira o apartamento onde ela morava, encontrando-a reunida com alguns colegas em torno de um trabalho escolar, forçando-a a dar-lhe uma atenção que dizia ele, antes havia sido negada. Mantendo-os presos sob a ameaça de um revólver, mas sem um objetivo definido, leváva-nos a crer que talvez quisesse apenas expressar algo como a imensidão de seu amor. Muitas horas depois, outra chamada de noticiário extra nos lembrava do que ocorria e que a situação persistia, alterada por dois diferenciais opostos; de um lado, a versão romantizada pela mídia que apresentava repetidamente na telinha um garoto apaixonado e ferido, carente de compreensão e atenção, e do outro, os fatos narrados por dois jovens já liberados pelo seqüestrador que revelavam a postura agressiva do mesmo personagem, descontrolado portador de um saco cheio de munição e ressentimento . Começava a delinear-se por trás da história do pobre rapaz o agravante do desespero do seu amor. E os fatos novos ou antigos que se seguiam a cada vez que o repórter nos tirava do sono, do café, da conversa em família, mostrando incontáveis vezes no vídeo as cenas da mocinha na janela, frente a desejada e inatingível liberdade, pedindo calma e tendo como pano de fundo o vulto assustador do rapaz. Desnudado pelo poder de aproximação da câmera, na face do esforçado trabalhador o perigo iminente da insanidade do seu amor. No trabalho, esquecidos do assunto, mergulhados em nossas obrigações, ouvíamos que, apesar das longas horas que haviam se passado, a refém ou as reféns não tinham sido libertadas. Naquele momento, o jogador dos fins de semana, tão semelhante aos companheiros de futebol nas fotos insistentemente exibidas, então transformado em celebridade, via a acalentada fama abrutalhar-se na certeza da inviabilidade do seu amor. E ao despertar de outra noite de sono ou dos nossos próprios problemas, descobríamos que o impasse continuava, o cerco policial se intensificava e que as janelas mudas escondiam por trás do lençol ou da camisa do time preferido do antes inofensivo rapaz, a inevitável ameaça do seu amor. Nas incontáveis vezes em que buscávamos, canal por canal, notícias alentadoras, destarte os depoimentos de amigos, parentes e conhecidos, que falavam de um Lindemberg bonzinho e sofredor, pressentíamos nas imagens quase inalteradas do cenário a tragédia que se insinuava através da crueldade do seu amor. No desfecho do sequestro, ao som dos estampidos seguido pelas imagens que se desenrolaram ao vivo, a constatação do que se descobrira ao longo daquelas demoradas horas: o amor imenso, desesperado, insano, inviável, ameaçador e cruel era um engodo. Em seguida à explosão da porta, invasão do local, retirada apressada das garotas feridas e à operação desastrada da prisão do sequestrador, a polícia e a perícia fizeram uma varredura no chamado palco da tragédia e não encontraram em lugar nenhum, esquecido ou escondido, qualquer vestígio do elemento citado incessantemente naqueles cinco dias: o tão anunciado amor do “Liso”.
Discutiu-se muito a opção de não se ter utilizado a tecnologia disponível, calculou-se a distância dos atiradores de elite, o alcance das bombas que explodiram a porta, questionou-se a sanidade do rapaz e investigou-se até mesmo o passado e o presente das famílias envolvidas na tragédia. A despeito de tudo isto, depois de dissipada a fumaça dos explosivos e dos ânimos, a maioria das pessoas ainda não conseguia se aperceber da verdade que se evidenciava. Independentemente da estratégia utilizada pela polícia, negociadores ou familiares, vivo ou morto, o então famoso Lindemberg só saíria do cativeiro em que ele próprio se aprisionou, tendo alcançado o seu intuito, que fora, desde o princípio, arrancar dali o objeto de seu desejo, a vida de Eloá.
OBS: “Liso” era o apelido pelo qual era conhecido o possessivo e inconformado aspirante à celebridade de Santo André.

