quarta-feira, 19 de novembro de 2008

CASO ELOÁ - I - O AMOR DE LISO POR ELOÁ

Foto de João Prates


Assistimos dias atrás a um Big Brother do Terror. Desta vez não nos foi dado escolher se queríamos, ou não, gastar o tempo diante da TV assistindo a diálogos fúteis e encenações de paixões inexistentes, vendo como se comportam pessoas comuns ante a possibilidade de ganhar um elevado prêmio em dinheiro, com todos se esfalfando e vendendo a alma em busca do título de vencedor. Não, não era um desses reality shows inconseqüentes que invade as casas de tempos em tempos. Era a vida real nos adentrando a sala a todo momento e após as primeiras incursões em nosso cotidianozinho morno chamando a atenção para o fato noticiado pela TV. À medida que as horas foram se passando pudemos, gradativamente, compreender que diferentemente do BBB, dali não sairiam vencedores.
A princípio pareceu-nos que, como resultado de uma pequena rusga entre um casal de jovens namorados, o rapaz rejeitado pela mocinha invadira o apartamento onde ela morava, encontrando-a reunida com alguns colegas em torno de um trabalho escolar, forçando-a a dar-lhe uma atenção que dizia ele, antes havia sido negada. Mantendo-os presos sob a ameaça de um revólver, mas sem um objetivo definido, leváva-nos a crer que talvez quisesse apenas expressar algo como a imensidão de seu amor. Muitas horas depois, outra chamada de noticiário extra nos lembrava do que ocorria e que a situação persistia, alterada por dois diferenciais opostos; de um lado, a versão romantizada pela mídia que apresentava repetidamente na telinha um garoto apaixonado e ferido, carente de compreensão e atenção, e do outro, os fatos narrados por dois jovens já liberados pelo seqüestrador que revelavam a postura agressiva do mesmo personagem, descontrolado portador de um saco cheio de munição e ressentimento . Começava a delinear-se por trás da história do pobre rapaz o agravante do desespero do seu amor. E os fatos novos ou antigos que se seguiam a cada vez que o repórter nos tirava do sono, do café, da conversa em família, mostrando incontáveis vezes no vídeo as cenas da mocinha na janela, frente a desejada e inatingível liberdade, pedindo calma e tendo como pano de fundo o vulto assustador do rapaz. Desnudado pelo poder de aproximação da câmera, na face do esforçado trabalhador o perigo iminente da insanidade do seu amor. No trabalho, esquecidos do assunto, mergulhados em nossas obrigações, ouvíamos que, apesar das longas horas que haviam se passado, a refém ou as reféns não tinham sido libertadas. Naquele momento, o jogador dos fins de semana, tão semelhante aos companheiros de futebol nas fotos insistentemente exibidas, então transformado em celebridade, via a acalentada fama abrutalhar-se na certeza da inviabilidade do seu amor. E ao despertar de outra noite de sono ou dos nossos próprios problemas, descobríamos que o impasse continuava, o cerco policial se intensificava e que as janelas mudas escondiam por trás do lençol ou da camisa do time preferido do antes inofensivo rapaz, a inevitável ameaça do seu amor. Nas incontáveis vezes em que buscávamos, canal por canal, notícias alentadoras, destarte os depoimentos de amigos, parentes e conhecidos, que falavam de um Lindemberg bonzinho e sofredor, pressentíamos nas imagens quase inalteradas do cenário a tragédia que se insinuava através da crueldade do seu amor. No desfecho do sequestro, ao som dos estampidos seguido pelas imagens que se desenrolaram ao vivo, a constatação do que se descobrira ao longo daquelas demoradas horas: o amor imenso, desesperado, insano, inviável, ameaçador e cruel era um engodo. Em seguida à explosão da porta, invasão do local, retirada apressada das garotas feridas e à operação desastrada da prisão do sequestrador, a polícia e a perícia fizeram uma varredura no chamado palco da tragédia e não encontraram em lugar nenhum, esquecido ou escondido, qualquer vestígio do elemento citado incessantemente naqueles cinco dias: o tão anunciado amor do “Liso”.
Discutiu-se muito a opção de não se ter utilizado a tecnologia disponível, calculou-se a distância dos atiradores de elite, o alcance das bombas que explodiram a porta, questionou-se a sanidade do rapaz e investigou-se até mesmo o passado e o presente das famílias envolvidas na tragédia. A despeito de tudo isto, depois de dissipada a fumaça dos explosivos e dos ânimos, a maioria das pessoas ainda não conseguia se aperceber da verdade que se evidenciava. Independentemente da estratégia utilizada pela polícia, negociadores ou familiares, vivo ou morto, o então famoso Lindemberg só saíria do cativeiro em que ele próprio se aprisionou, tendo alcançado o seu intuito, que fora, desde o princípio, arrancar dali o objeto de seu desejo, a vida de Eloá.


OBS: “Liso” era o apelido pelo qual era conhecido o possessivo e inconformado aspirante à celebridade de Santo André.

CASO ELOÁ - II - OS LINDEMBERGS NOSSOS DE CADA DIA


Ao pensarmos na possibilidade de casar ou simplesmente morar junto com alguém, seguimos, inadvertidamente, a tendência de analisar mais os pontos positivos do parceiro, vendo-os com lente de aumento, enquanto procuramos minimizar-lhe as imperfeições. É comum concluir que com uma convivência mais estreita um e outro podem conhecer mais a fundo idéias, sentimentos e reações mais recônditos e desconhecidos aos primeiros contatos. Conclusão ingenua pensar que as incontáveis opiniões expressadas diariamente a respeito de tantos acontecimentos, possam servir de subsídios para se prever as reações do companheiro em situações semelhantes. Com a maturidade o mundo real irá desnudar-se mostrando-nos que as pessoas são mutáveis e estão em constante processo, portanto é vã e tola essa segurança que se ampara nas evidências cotidianas. Na verdade podemos sempre nos surpreender com atitudes inesperadas, nos deparar com o que acreditávamos impossível ou inimaginável.
O que leva, então, alguém que pensávamos conhecer tão profundamente a agir de forma extremamente diversa do previsível? Primeiramente, o transcorrer da vida que vai calejando e moldando o jeito de ser de cada indivíduo e tornando-o diferente e por vezes até o oposto do que já foi ou do que se esperava dele. E mais outros fatores responsáveis por mudanças bruscas: as frustrações, a rejeição, a pressão, o sentir-se encurralado e sem alternativa frente a um impasse. Por essa perspectiva, qualquer pessoa contrariada em suas vontades e expectativas pode representar um perigo em potencial, desde que não tenha trabalhado e resolvido seus anseios e insucessos. Excluindo-se os casos ditos patológicos, não existe possibilidade de identificar os Lindembergs Nossos de Cada Dia, pois de fato somos todos passíveis de em situações extremas, agir como gatos acuados, que de dóceis animaizinhos podem se transformar em feras com garras e dentes à mostra.
Tarefa difícil essa de encontrar a pessoa certa para dividir conosco a casa, a cama, os sonhos, a vida. Como distinguir dentre tantas a que pode nos fazer feliz. Antes de tudo é preciso sair na chuva e se molhar mesmo porque não há outro modo de se chegar ao tão esperado encontro da chamada outra metade que nos completa. No entanto não é tão simples como pode parecer. Haveremos de bater com a cara na parede talvez um montão de vezes e apesar de tudo, continuar persistindo nessa busca. Persistir usando o discernimento necessário para saber recuar, voltar atrás diante dos equívocos e da descoberta de que um movimento errado pode levar a resultado mais desastroso. Por segurança, vale a pena estar sempre alerta a qualquer sinal de desamor e só permanecer com alguém quando o amor e o respeito forem recíprocos. Não ser nunca o vilão porque a maldade envenena antes de tudo a própria alma. Entretanto, não permitir que nenhum vilão desperdice um minuto sequer de nossos preciosos dias com comentários de desdém que tem o poder de destruir a nossa auto-estima. Ter a coragem de sair de uma relação infeliz, considerando a chance de encontrar uma pessoa melhor ou de ao menos viver com dignidade, mesmo sozinho. Desconfiar de quem não nos tem consideração e faz pouco caso de nossos sentimentos. Destratado uma vez, duas, não esperar mais. Saber a hora de reagir ao sofrer agressão verbal ou física e não protelar situações de insegurança. A vida a dois deve ser vivida em meio a bons sentimentos e companheirismo. Todo mundo tem o direito de ser feliz, mas todos nós somos responsáveis pela escolha da Felicidade Nossa de Cada Dia.