Alheia ao burburinho das mesas em redor, pude vê-la esboçar as últimas tentativas de se agarrar à sua essência, transmutando-se a seguir em calma aceitação ao lhe ser negada a derradeira prorrogação. Desenhara-se em sua fisionomia serena o último esforço, revelando no instante seguinte que não havia mais vida no corpinho pequeno, frágil, que restara da mulher decidida e atuante que fora e que jazia ali em seu ponto final. Tentei afastar de mim a idéia obsessiva que me oprimia. Contudo, falhei na tentativa de retornar à mesa, olhando para o prato onde os alimentos desapareciam em transparências e deixavam à vista a senhorinha indefesa, ainda sem as flores usuais, deitada no caixão que foi fechado e levado para o carro mortuário. Num piscar dos olhos enevoados, as lágrimas contidas escorreram-me pelo rosto revelando o conteúdo do silêncio. Vi com nitidez que o poço que guarda minhas lágrimas não tem fundo e que o passado tem o poder de se ocultar em todos os lugares, adormecido, aguardando o menor gesto ou brisa que o acorde. Algumas vezes para se insinuar levemente numa saudadezinha gostosa, ou num sopro quase imperceptível e em outras, sem nenhuma explicação, rasgando-me o peito, explodindo, como neste rompante avassalador.
Afinal, quanto tempo levará para o esquecimento vir anestesiar-me os sentidos, descolorindo as cenas que tantas vezes assomam-me à memória arrancando soluços? Ocasiões que eu nem sabia felizes, me vêm à mente, chamando-me a atenção para a irreversibilidade da morte. Incontáveis vezes em que dirigindo o carro me invade traiçoeiro o desejo de ir à casa dela, para imediatamente após me assaltar a aflição de que não há mais casa aonde ir. A visão recorrente da saída dos móveis, do desmoronar de toda uma história, desmanchada qual peças de um quebra-cabeças sendo retiradas, descolorindo o que foi colorido ao longo dos dias, meses e anos ali passados; braços incansáveis a retirar de lá de dentro toda recordação ou vestígio do que foi vivido. O caminhão carregado dos cacos do universo demolido ante meus olhos, levando para sempre os utensílios inertes, destinando-os a quem pudesse fazê-los reviver. O mato cobrindo o jardim de sonhos que um dia mandei fazer para mamãe, surpreendendo-a com a mágica de criar do dia para a noite flamboyants, nuvens e brincos de princesa já floridos, no local onde há tempos não se cultivava mais nada a não ser a aridez do vazio. Parecia-me que continuavam enfeitando a mesa ou a estante, os copinhos com água e as flores que colhia tão logo brotavam. Ela os reservava para me presentear na volta do trabalho e eu retribuía a atenção com um vasinho de flores diferentes ou raras e pequenos mimos como sequilhos, suspiros e outras guloseimas. Por essa época brotou entre nós uma nova relação, não sei se semelhante a de grandes amigas ou mesmo a de namorados, mas que para mim se apresentava como a que eu sempre havia buscado. O que acontecia de fato não importava, me era reconfortante (mesmo que ilusório) que fosse o encontro de mãe e filha que em cada minuto da escuridão do tempo tatearam à procura uma da outra sem que nunca tivessem conseguido se encontrar.
Os carregadores passavam rápida e estabanadamente cumprindo a função que lhes tinha sido designada. Um mal jeito aqui, derrubando o cabideiro antigo, outro ali, quebrando a quina da parede bem ao lado do quadro da Santa Ceia. Alguém remexendo na caixa de cartas entulhada de correspondências enviadas por quem não chegou a saber que não vivia mais naquele endereço o destinatário. Pessoas desconhecidas atravessando os cômodos vazios e silenciosos que escondiam a sombra de minha mãe fechando os olhos para o que lhe parecia hostil e calando a voz para não ser surpreendida por palavras desconexas ou contrárias ao que queria transmitir.
Desde o dia em que decidi juntar todos os papéis que restavam, apagar as luzes e fechar de vez os cadeados, não voltei mais lá. Nem na rua tornei a passar. A cadeira de banho permanece no banheiro, inútil. Não se ouvem vozes, nem risos, nem os fantasmas que assustavam os empregados. Todos se foram junto com ela e não retornaram. Os fantasmas de hoje são os meus próprios e só dizem respeito aos medos e conflitos que me são particulares. Fujo deles, mas me assombram em qualquer lugar. Inclusive na mesa do restaurante. Os pisos leves e a voz mansa são vãos e não podem evitar que despertem. Ignorar-lhes a presença não fará com que desapareçam. Esses fantasmas serão presença constante do meu lado, como os de mamãe que a acompanharam em toda a sua trajetória. No entanto, somente a maturidade me trará a sabedoria que lhe deu condições de conviver com eles, naturalmente, sem sustos, usufruindo de sua companhia e amparo. Mantendo o foco nas recordações felizes. Porque há muito de bom a ser rememorado: imagens, sons, sabores, odores. Lembranças dessa natureza vão me impulsionar a encarar os desafios à frente e me encorajar na orientação das novas gerações. Mas que me venham as lágrimas a lembrar situações alegres e tristes que cultivem em mim a capacidade de sentir.






