quinta-feira, 4 de setembro de 2008

COSTURANDO LABIRINTOS

Aptidões para trabalhos manuais eram bem vindas na época em que eu era criança e adolescente. Existiam colégios que ensinavam prendas domésticas como a arte culinária, bordados, crochê, tricô e tantas outras. Minha mãe tentou me matricular em um desses, mas embora tenha batalhado ano a ano, não arranjou a tão sonhada (por ela) vaga e apesar dos esforços despendidos no âmbito domiciliar nunca conseguiu que eu herdasse os seus talentos. Ela que durante toda sua vida costurara e bordara com esmero, no adiantado da idade e com o agravamento da doença, ficou impedida de trabalhar devido à perda gradual da visão. Todavia, seus olhinhos brilhavam e o rosto acendia-se num sorriso, ao ver e sentir com os dedos experientes uma peça de labirinto. Também conhecido como crivo, o labirinto exige paciência e dedicação para sua realização. Para fazê-lo, risca-se o desenho no tecido, de preferência linho, prendendo-o em seguida a um bastidor ou armação semelhante, onde após desfiá-lo procede-se a um minucioso bordado utilizando-se uma lâmina, tesourinha e agulha. Minha avó fazia incansáveis labirintos. Dos chamados caminhos de mesa às estolas do meu tio Padre. Talvez por isso fosse o trabalho preferido da filha mais velha, que fez-lhe o gosto de herdar as habilidades manuais maternas.


Foto de Lena Trindade

Já eu, incompetente no manuseio de linha e agulha, descobri nos livros o encantamento que me abstraiu da solidão de única filha menina, criada com desvelo excessivo e expectativas a que não podia atender. Do mesmo modo que arranjava artifícios para driblar as proibições de mascar chicletes e andar de bicicleta, inventei meios para ler nos horários em que deveria bordar ou fazer crochê. Desse gosto de ler nasceu o de escrever e voltando a atenção para a caneta ( o teclado de hoje ) venho tentando através dos anos, fazer jus ao empenho de minha mãe aprendendo pelo menos o bordado das palavras. Gosto de brincar com elas, traçar um esboço, prendendo-o a um bastidor imaginário e desfiá-las, pouco a pouco, para em seguida costurá-las entremeando-as com os meus sentimentos. Busquei aperfeiçoamento na universidade, mas não encontrei na academia objetivos que coincidissem com os meus; enquanto na leitura e na escrita me seduziam o conteúdo dos textos e as possibilidades que se abriam diante de mim, os acadêmicos consideravam imprescindível a identificação dos campos, das escolas e ideologias a que se pudesse seguir ou pertencer, e o aprofundamento na literatura como ciência. Não almejo tanto. Pretendo somente um dia quando tiver adquirido o conhecimento e a habilidade necessários, contar histórias. Sei, que pela falta de intimidade com as agulhas, até aprender a arte do bordado, vou espetar muito as pontas dos dedos. Torço para ter tempo pela frente.

Hoje, neste blogue quero apenas espaço para externar alegria, perplexidade ou indignação pelo que acontece ao meu redor. Por hoje me basta que estas palavras, ainda pouco lapidadas, possam ser um convite à reflexão. Se conseguir fazer com que alguém pense comigo ou a partir desse ponto, mesmo que numa direção exatamente oposta a mim, porém instigado pelos meus questionamentos, já terei terminado pelo menos uma pequena parte daquela toalha de mesa que D. Cassinha queria que eu tivesse feito.

Sugestão de filme: Minha vida de cachorro

5 comentários:

Joel Cavalcanti disse...

Se coser e cozinhar não são habilidades tuas, quando você (d)escreve isso mostra a tua irrefutável e evidente vocação.

Parabéns Aurita por esta disposição de seguir estes labirintos nos quais você não se perde, e ainda por nos contar tudo que neles passar.

Já estou ansioso pelo próximo post...

Beijão!

(saudades tuas)

Flávio disse...

Gosto de ver as suas costuras e fico feliz porque agora, com o blog, elas aparecerão com maior freqüência além de ficarem registradas. =D
Beijos!

Anais disse...

Que lindo, D. Aurita, poder visualizar esta sua habilidade, já aparentemente percebida na tessitura do contar das histórias cotidianas, aparecendo com a mesma destreza assim, em letras... Também sou apaixonada por elas... Fico extasiada só de olhar a biblioteca que a senhora construiu nessa arte de fugir das agulhas! Mas, nunca, a vida nos permite fugir de costurar nossos labirintos, nossas alternativas, nossas fugas...
Adorei o espaço!
Passarei sempre, com mais calma, pra apreciar!!!

feurouge disse...

'la leche buena toda en mi garganta

la mala leche para los puretas'


Que ótima surpresa :D! Remedinho virtual,rs,nesse eu confio.Aurita,derrama todo o leite,estou pra lá de faminto.

Cheiro.

Anônimo disse...

O blog tá lindo, o nome ficou perfeito e as fotos estão muito bem escolhidas! Fico extremamente orgulhosa e feliz por ver essas palavras, sempre tão bem expressadas, se expandindo para outras cabecinhas. Desejo de muita energia pra escrever bem muito aqui pra gente. Te amo muito demais infinitamente!